domingo, 18 de dezembro de 2011

A ilusão,a doutrina de negação da vida,o ópio do povo -Parte2

  Como vimos no post passado,(http://mikolaandia.blogspot.com/2011/12/ilusaoa-doutrina-de-negacao-da-vidao.html) Freud em seu livro "O Futuro de Uma Ilusão" disserta sobre a civilização,o futuro e a origem da  religiosidade que se dá a partir de uma tentativa de defesa contra o desamparo ,sendo por ele comparada a um complexo paterno.Com o passar do tempo,essa forma de religiosidade foi "evoluindo" (se é que podemos dizer assim),inicialmente as divindades eram representadas por animais,posteriormente eram representadas por várias divindades,cada uma personificava algo da natureza como podemos observar nos deuses gregos por exemplo,mas alguns historiadores afirmam que a primeira manifestação de personificação em uma divindade principal seria na figura feminina,com certeza esse tipo de manifestação ocorreu,mas não se sabe afirmar exatamente a ordem.E assim as coisas foram caminhando até chegar ao Zoroastrismo que é considerada a primeira manifestação monoteísta ética da história e que abriu as portas para uma nova forma de enxergar a divindade,como algo único,um só senhor de tudo o que existe,monopolizando e atraindo mais fortemente os fiéis com sua onipotência e evitando assim controvérsias acerca dos diversos deuses.O Zoroastrismo influenciou bastante o islamismo,o judaísmo e a religião que domina o mundo ocidental e que foi o modelo religioso focado pelos teóricos que apresento nesses posts,o cristianismo.Mas a "evolução" das religiões ainda não param por aí,estão desenvolvendo características e explicações cada vez mais sofisticadas para tentar se firmar em frente as questões,dúvidas e explicações demandadas pelo avanço tecnológico e científico.
  As explicações históricas acerca da divindade como algo criado pelo homem,podem soar a primeira vista como algo estranho,mas para compreender melhor é importante ressaltar que o que nos faz achar estranho,é porque todas as informações a respeito das divindades e das religiões,nos são passadas em forma de revelação divina,quando nascemos já encontramos essas informações prontas lá há gerações e nos são passadas desde cedo,assim como as idéias do que é certo e do que é errado,e acabamos as assumindo de uma forma ou de outra.Nietzsche fala que o homem cria diversas coisas como a moralidade (certo e errado),a idéia de deus,os conceitos...e depois "esquece" que foi ele que criou,e os assume como uma verdade.
  Pelo que pode-se perceber,o teísmo esteve sempre presente nas diversas culturas,e podemos afirmar a sua importância e sucesso em transmitir sentimentos de amparo e segurança para a humanidade.São prezadas como o nosso bem mais precioso,mas...enquanto ao seu valor real? 
  Bem,assim como nos é dito no livro,uma constatação científica,matemática por exemplo,é provada e pode ser atestada e repetida por qualquer um que tenha as condições e conhecimentos necessários.Aprendemos que 2+2=4,se pegarmos duas bolas e juntarmos com outras duas bolas,teremos quatro bolas.O conhecimento científico,pode e deve ser contestado sempre que não suprir a demanda da questão que supõe resolucionar ou mostrar-se incorreto,porém,ele tem valor real,é provado e pode ser atestado,é nós dado sempre a fonte e quando questionamos não nos pedem pra aceitar,nos informam como podemos atestar.
Mas quando nos perguntamos a respeito da veracidade das afirmações religiosas ou a acerca da divindade,encontramos 3 respostas ,visto que não é possível provar o que é dito.
A primeira é de que devemos acreditar porque nossos ancestrais acreditavam,o que é totalmente duvidoso visto que nossos ancestrais eram bem mais ignorantes que nós e acreditavam em coisas totalmente questionáveis como que a terra era quadrada e coisas do tipo,a segunda resposta é de que a religião traz provas como a bíblia por exemplo,o que também é altamente questionável visto que o que eles chamam de provas não são nem provadas e também se encontram em discussão,além de estarem cheias de contradições e falsificações,a terceira resposta é a de que não se deve questionar sua autenticidade,ora,isso já a coloca em posição extremamente suspeita,demonstrando a insegurança dos religiosos,pois se estivem seguros colocariam a prova a quem quer que seja.Freud afirma que "esse estado das coisas é em sí próprio um problema psicológico",mesmo com essas a ausência de explicações e essas justificativas que mal se encaixam a humanidade ainda insiste em acreditar em algo que não se sustenta.
Em resposta a essas questões sem resposta,encontramos duas justificativas : 
A primeira é a "credo quia absurdum",ou seja,creio porque é absurdo,que sustenta que a doutrina religiosa está acima da razão,"sua verdade deve ser sentida interiormente,e não,compreendida".
"Então devemos aceitar todos os absurdos como verdades acima da razão? se não,porque este em particular?"E se apenas um grupo pequena tem essa experiencia interna,isso deve valer como obrigação e justificativa para os outros que não sentem?
A segunda justificativa é a admissão de que as afirmações religiosas são realmente absurdas,mas devemos nos comportar "como se" nela acreditássemos,devido a sua importância e valor para a sobrevivência e para a moralidade,afinal " Se deus não existe e a alma é mortal,tudo é permitido " (Schopenhauer)
Esta segunda tentativa de justificar pode ser melhor explicada por Nietzsche,então prefiro deixar a crítica a ela para depois.
  Outro problema psicológico comentado por Freud,foi a respeito da enorme influência que a religião teve e tem sobre o homem desde o seu surgimento,influência que se manifesta desde acreditar em algo sem explicações precisas e satisfatórias,até queimar pessoas vivas na fogueira.
A respeito dessa gigantesca influência e do porque dela ser tão forte,Freud encontrou a resposta justamente na palavra que está no título de seu livro e que é como ele acredita se encaixar perfeitamente á religião: Ilusão.Calma,pra entendermos melhor,é necessário explicar o porque dele ter atribuído justamente a palavra ilusão,e ele explica isso perfeitamente.
  "Quando digo que todas essas coisas são ilusões,devo definir o significado da palavra.
Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro;tampouco é necessariamente um erro.A crença de Aristóteles de que os insetos se desenvolviam do esterco era um erro.[...]Seria incorreto chamar esses erros de ilusões.
Por outro lado,foi ilusão de Colombo acreditar que descobriu um novo caminho marítimo para as Índias.O papel desempenhado por seu desejo neste erro é bastante claro.[...]O que caracteriza as ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos.[...]As ilusões não precisam ser necessariamente falsas,ou seja,irrealizáveis ou em contradição com a realidade ."

"Podemos,portanto,chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e,assim procedendo,desprezamos suas relações com a realidade,tal como a própria ilusão não dá valor á verificação."

A partir desta definição então,podemos compreender e responder a pergunta feita anteriormente sobre o poder de influência da religião e da crença em uma divindade.Ela é tão forte porque a força de uma ilusão é equivalente a força da desejo,e como vimos, diante do desamparo terrificante ante as forças superiores da natureza,amparo,proteção,um pai zeloso,eterno e onipotente se tornou a melhor forma (talvez o único recurso que o homem primitivo tivesse,visto que o homem tem a tendência de exteriorizar e personificar seus temores para poder controla-los) de amenizar o temor e suprir suas demandas psicológicas.

Acho que por hoje é só,no próximo post eu prometo que termino Freud rsrs
Beijos e até lá :*

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A ilusão,a doutrina de negação da vida,o ópio do povo -Parte1

  Bom gente,vou iniciar aqui,uma série de posts sobre como Freud,Marx e Nietzsche percebem a religião.
  Antes de mais nada,acho interessante que possamos separar em nossas cabeças 2 coisas:

1.Separar a concepção de uma divindade (Deus) de instituição religiosa.
2.Separar as duas concepções de divindade :
-Deus como uma entidade personificada como é retratado por exemplo no cristianismo e no hinduísmo
-Deus como uma energia

Bem,os três teóricos de maneira geral compartilham de idéias bastante parecidas,Freud em seu livro "O Futuro de Uma Ilusão" discursa sobre a civilização e o que seria sua maior ilusão,a religião.Mas para entendermos melhor o porque de Freud ter escolhido a palavra "ilusão" para se remeter a religião dentre outras coisas,primeiramente é preciso fazer uma viagem ao passado que o próprio livro nos instiga.
  Antes de usar cotonetes e talheres,a espécie humana vivia em um completo estado de natureza até que desses seus primeiros passos em direção a cultura,deixando de ser apenas natural,cíclica e limitada para construir e transmitir uma cultura,o que nos torna animais simbólicos (capacidade de representar) permitindo a aquisição e desenvolvimento de uma linguagem,assim como a consciência do outro,da morte e de nós mesmos,possibilitando ao homem se mover no tempo e no espaço.
Com esse grande passo, a humanidade iniciou o processo civilizador,abandonando o estado total de natureza e renunciando a barbárie para se enquadrar aos limites de uma vida em sociedade.
Rousseau fala a respeito em "Do Contrato Social",onde podemos dizer (bem resumidamente) que tanto a civilização quanto o homem ao nascer,"assinam" uma espécie de contrato social onde deve-se renunciar a barbárie e os instintos de uma vida natural,livre e primitiva,para obter os benefícios de uma sociedade com todos os seus limites e repressões,mas que os protegia de uma natureza que ao mesmo tempo que libertava,os eliminava pelos próprios meios,pois o outro também teria os mesmos direitos que eu de matar e oprimir a quem quiser,inclusive a mim.Foi justamente devido a esses perigos naturais que nos ameaçam que demos a luz a civilização,"Pois a principal missão da civilização,sua razão de ser real,é nos defender contra a natureza." (Freud).
  Mesmo assim a sensação de desamparo continua,a natureza se ergue contra nós e sua força é revelada por meio de catástrofes naturais e uma série de eventos -Destino,para os homens- e de enigmas cruéis como a morte,causando grave prejuízo ao narcisismo natural do homem,nos lembrando do desamparo que acreditávamos ter sido desviado no processo civilizador.Mas se de repente transformamos todo esse pavor em algo proposital direcionado de alguma forma para o nosso bem,a situação muda completamente,e ao invés de fragilidade e desamparo,nos sentimos confortados por algo superior com objetivos igualmente superiores.
"Contudo,se nos elementos se enfurecerem paixões da mesma forma que em nossas próprias almas,se a morte não for algo espontâneo,mas o ato violento de uma vontade maligna,se tudo na natureza forem seres a nossa volta,do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade,então podemos respirar livremente,sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar com nossa insensata ansiedade através de meios psíquicos." .

E é assim que se defende o homem contra os poderes da natureza,do destino e de tudo o mais que lhe ameaça,por meio das idéias religiosas.
Freud retrata a relação da civilização com os deuses que tem como consequência a religião,por meio de uma espécie de complexo paterno,

"O homem transforma as forças da natureza não simplesmente em pessoas com quem pode associar-se como seus iguais mas lhe concede o caráter de um pai.Transforma-a em deuses [...]Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre,que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores,empresta a esses poderes as características pertencentes a figura do pai;cria para si próprio os deuses a quem teme,a quem procura propiciar e a quem,não obstante,confia sua proteção.Assim,seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as consequências de sua debilidade humana.É defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer - reação que é,exatamente,a formação da religião."

"Estes [deuses] mantém sua tríplice missão : exorcizar os terrores da natureza ,reconciliar o homem com as crueldades do destino ,particularmente a que lhe é demonstrada na morte,e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs."


  Acho que por hoje é só,no próximo post eu continuo a partir dos motivos encontrados no livro sobre os porquês de acreditar em em uma divindade e/ou seguir uma doutrina religiosa.
Beijos :*

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Eu vos ensino o Super Homem.


O homem é algo que deve ser superado.
O que fizeste para supera-lo?
Todos os seres até agora,criaram algo acima de si mesmos;e vós quereis ser a baixa-mar dessa grande maré cheia e retrogradar ao animal,em vez de superar o homem?
Que é o macaco para o homem?Um motivo de riso ou de dolorosa vergonha.E é justamente isso o que homem deverá ser para o Super Homem : um motivo de riso ou de dolorosa vergonha.
Percorreste o caminho que vai do verme ao homem,mas ainda tendes muito do verme .Fostes macaco um tempo e também agora,o homem é ainda mais macaco que qualquer macaco. [...]
O homem é uma corda estendida entre o homem e o Super Homem - uma corda sobre um abismo.
É o perigo de transpo-lo,o perigo de estar a caminho,o perigo de olhar pra traz,o perigo de tremer e parar.
O que há de grande no homem é ser ponte e não meta: o que pode amar-se no homem é ser uma transição e um ocaso. [...]
Homem era ele e nada mais que um pobre pedaço de homem e do meu eu: surgia em mim da minha própria cinza em brasa,em verdade,esse fantasma!Não vinha a mim do além!
Que aconteceu ,meus irmãos? Sofredor,superei a mim mesmo,levei a minha cinza para o monte e inventei para mim uma chama mais clara.
E eis que então o fantasma desapareceu!

Já falastes assim?Já gritastes assim?Ah se eu vos tivesse ouvido,algum dia,gritar assim! "
--


Friedrich Nietzsche -Assim Falou Zaratrusta
"Atrair muitos para fora do rebanho,foi para isso que eu vim "