Como vimos no post passado,(http://mikolaandia.blogspot.com/2011/12/ilusaoa-doutrina-de-negacao-da-vidao.html) Freud em seu livro "O Futuro de Uma Ilusão" disserta sobre a civilização,o futuro e a origem da religiosidade que se dá a partir de uma tentativa de defesa contra o desamparo ,sendo por ele comparada a um complexo paterno.Com o passar do tempo,essa forma de religiosidade foi "evoluindo" (se é que podemos dizer assim),inicialmente as divindades eram representadas por animais,posteriormente eram representadas por várias divindades,cada uma personificava algo da natureza como podemos observar nos deuses gregos por exemplo,mas alguns historiadores afirmam que a primeira manifestação de personificação em uma divindade principal seria na figura feminina,com certeza esse tipo de manifestação ocorreu,mas não se sabe afirmar exatamente a ordem.E assim as coisas foram caminhando até chegar ao Zoroastrismo que é considerada a primeira manifestação monoteísta ética da história e que abriu as portas para uma nova forma de enxergar a divindade,como algo único,um só senhor de tudo o que existe,monopolizando e atraindo mais fortemente os fiéis com sua onipotência e evitando assim controvérsias acerca dos diversos deuses.O Zoroastrismo influenciou bastante o islamismo,o judaísmo e a religião que domina o mundo ocidental e que foi o modelo religioso focado pelos teóricos que apresento nesses posts,o cristianismo.Mas a "evolução" das religiões ainda não param por aí,estão desenvolvendo características e explicações cada vez mais sofisticadas para tentar se firmar em frente as questões,dúvidas e explicações demandadas pelo avanço tecnológico e científico.
As explicações históricas acerca da divindade como algo criado pelo homem,podem soar a primeira vista como algo estranho,mas para compreender melhor é importante ressaltar que o que nos faz achar estranho,é porque todas as informações a respeito das divindades e das religiões,nos são passadas em forma de revelação divina,quando nascemos já encontramos essas informações prontas lá há gerações e nos são passadas desde cedo,assim como as idéias do que é certo e do que é errado,e acabamos as assumindo de uma forma ou de outra.Nietzsche fala que o homem cria diversas coisas como a moralidade (certo e errado),a idéia de deus,os conceitos...e depois "esquece" que foi ele que criou,e os assume como uma verdade.
Pelo que pode-se perceber,o teísmo esteve sempre presente nas diversas culturas,e podemos afirmar a sua importância e sucesso em transmitir sentimentos de amparo e segurança para a humanidade.São prezadas como o nosso bem mais precioso,mas...enquanto ao seu valor real?
Bem,assim como nos é dito no livro,uma constatação científica,matemática por exemplo,é provada e pode ser atestada e repetida por qualquer um que tenha as condições e conhecimentos necessários.Aprendemos que 2+2=4,se pegarmos duas bolas e juntarmos com outras duas bolas,teremos quatro bolas.O conhecimento científico,pode e deve ser contestado sempre que não suprir a demanda da questão que supõe resolucionar ou mostrar-se incorreto,porém,ele tem valor real,é provado e pode ser atestado,é nós dado sempre a fonte e quando questionamos não nos pedem pra aceitar,nos informam como podemos atestar.
Mas quando nos perguntamos a respeito da veracidade das afirmações religiosas ou a acerca da divindade,encontramos 3 respostas ,visto que não é possível provar o que é dito.A primeira é de que devemos acreditar porque nossos ancestrais acreditavam,o que é totalmente duvidoso visto que nossos ancestrais eram bem mais ignorantes que nós e acreditavam em coisas totalmente questionáveis como que a terra era quadrada e coisas do tipo,a segunda resposta é de que a religião traz provas como a bíblia por exemplo,o que também é altamente questionável visto que o que eles chamam de provas não são nem provadas e também se encontram em discussão,além de estarem cheias de contradições e falsificações,a terceira resposta é a de que não se deve questionar sua autenticidade,ora,isso já a coloca em posição extremamente suspeita,demonstrando a insegurança dos religiosos,pois se estivem seguros colocariam a prova a quem quer que seja.Freud afirma que "esse estado das coisas é em sí próprio um problema psicológico",mesmo com essas a ausência de explicações e essas justificativas que mal se encaixam a humanidade ainda insiste em acreditar em algo que não se sustenta.
Em resposta a essas questões sem resposta,encontramos duas justificativas :
A primeira é a "credo quia absurdum",ou seja,creio porque é absurdo,que sustenta que a doutrina religiosa está acima da razão,"sua verdade deve ser sentida interiormente,e não,compreendida".
"Então devemos aceitar todos os absurdos como verdades acima da razão? se não,porque este em particular?"E se apenas um grupo pequena tem essa experiencia interna,isso deve valer como obrigação e justificativa para os outros que não sentem?
A segunda justificativa é a admissão de que as afirmações religiosas são realmente absurdas,mas devemos nos comportar "como se" nela acreditássemos,devido a sua importância e valor para a sobrevivência e para a moralidade,afinal " Se deus não existe e a alma é mortal,tudo é permitido " (Schopenhauer)
Esta segunda tentativa de justificar pode ser melhor explicada por Nietzsche,então prefiro deixar a crítica a ela para depois.
Outro problema psicológico comentado por Freud,foi a respeito da enorme influência que a religião teve e tem sobre o homem desde o seu surgimento,influência que se manifesta desde acreditar em algo sem explicações precisas e satisfatórias,até queimar pessoas vivas na fogueira.
A respeito dessa gigantesca influência e do porque dela ser tão forte,Freud encontrou a resposta justamente na palavra que está no título de seu livro e que é como ele acredita se encaixar perfeitamente á religião: Ilusão.Calma,pra entendermos melhor,é necessário explicar o porque dele ter atribuído justamente a palavra ilusão,e ele explica isso perfeitamente.
"Quando digo que todas essas coisas são ilusões,devo definir o significado da palavra.
Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro;tampouco é necessariamente um erro.A crença de Aristóteles de que os insetos se desenvolviam do esterco era um erro.[...]Seria incorreto chamar esses erros de ilusões.
Por outro lado,foi ilusão de Colombo acreditar que descobriu um novo caminho marítimo para as Índias.O papel desempenhado por seu desejo neste erro é bastante claro.[...]O que caracteriza as ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos.[...]As ilusões não precisam ser necessariamente falsas,ou seja,irrealizáveis ou em contradição com a realidade ."
"Podemos,portanto,chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e,assim procedendo,desprezamos suas relações com a realidade,tal como a própria ilusão não dá valor á verificação."
A partir desta definição então,podemos compreender e responder a pergunta feita anteriormente sobre o poder de influência da religião e da crença em uma divindade.Ela é tão forte porque a força de uma ilusão é equivalente a força da desejo,e como vimos, diante do desamparo terrificante ante as forças superiores da natureza,amparo,proteção,um pai zeloso,eterno e onipotente se tornou a melhor forma (talvez o único recurso que o homem primitivo tivesse,visto que o homem tem a tendência de exteriorizar e personificar seus temores para poder controla-los) de amenizar o temor e suprir suas demandas psicológicas.
Acho que por hoje é só,no próximo post eu prometo que termino Freud rsrs
Beijos e até lá :*

