sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A ilusão,a doutrina de negação da vida,o ópio do povo -Parte1

  Bom gente,vou iniciar aqui,uma série de posts sobre como Freud,Marx e Nietzsche percebem a religião.
  Antes de mais nada,acho interessante que possamos separar em nossas cabeças 2 coisas:

1.Separar a concepção de uma divindade (Deus) de instituição religiosa.
2.Separar as duas concepções de divindade :
-Deus como uma entidade personificada como é retratado por exemplo no cristianismo e no hinduísmo
-Deus como uma energia

Bem,os três teóricos de maneira geral compartilham de idéias bastante parecidas,Freud em seu livro "O Futuro de Uma Ilusão" discursa sobre a civilização e o que seria sua maior ilusão,a religião.Mas para entendermos melhor o porque de Freud ter escolhido a palavra "ilusão" para se remeter a religião dentre outras coisas,primeiramente é preciso fazer uma viagem ao passado que o próprio livro nos instiga.
  Antes de usar cotonetes e talheres,a espécie humana vivia em um completo estado de natureza até que desses seus primeiros passos em direção a cultura,deixando de ser apenas natural,cíclica e limitada para construir e transmitir uma cultura,o que nos torna animais simbólicos (capacidade de representar) permitindo a aquisição e desenvolvimento de uma linguagem,assim como a consciência do outro,da morte e de nós mesmos,possibilitando ao homem se mover no tempo e no espaço.
Com esse grande passo, a humanidade iniciou o processo civilizador,abandonando o estado total de natureza e renunciando a barbárie para se enquadrar aos limites de uma vida em sociedade.
Rousseau fala a respeito em "Do Contrato Social",onde podemos dizer (bem resumidamente) que tanto a civilização quanto o homem ao nascer,"assinam" uma espécie de contrato social onde deve-se renunciar a barbárie e os instintos de uma vida natural,livre e primitiva,para obter os benefícios de uma sociedade com todos os seus limites e repressões,mas que os protegia de uma natureza que ao mesmo tempo que libertava,os eliminava pelos próprios meios,pois o outro também teria os mesmos direitos que eu de matar e oprimir a quem quiser,inclusive a mim.Foi justamente devido a esses perigos naturais que nos ameaçam que demos a luz a civilização,"Pois a principal missão da civilização,sua razão de ser real,é nos defender contra a natureza." (Freud).
  Mesmo assim a sensação de desamparo continua,a natureza se ergue contra nós e sua força é revelada por meio de catástrofes naturais e uma série de eventos -Destino,para os homens- e de enigmas cruéis como a morte,causando grave prejuízo ao narcisismo natural do homem,nos lembrando do desamparo que acreditávamos ter sido desviado no processo civilizador.Mas se de repente transformamos todo esse pavor em algo proposital direcionado de alguma forma para o nosso bem,a situação muda completamente,e ao invés de fragilidade e desamparo,nos sentimos confortados por algo superior com objetivos igualmente superiores.
"Contudo,se nos elementos se enfurecerem paixões da mesma forma que em nossas próprias almas,se a morte não for algo espontâneo,mas o ato violento de uma vontade maligna,se tudo na natureza forem seres a nossa volta,do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade,então podemos respirar livremente,sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar com nossa insensata ansiedade através de meios psíquicos." .

E é assim que se defende o homem contra os poderes da natureza,do destino e de tudo o mais que lhe ameaça,por meio das idéias religiosas.
Freud retrata a relação da civilização com os deuses que tem como consequência a religião,por meio de uma espécie de complexo paterno,

"O homem transforma as forças da natureza não simplesmente em pessoas com quem pode associar-se como seus iguais mas lhe concede o caráter de um pai.Transforma-a em deuses [...]Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre,que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores,empresta a esses poderes as características pertencentes a figura do pai;cria para si próprio os deuses a quem teme,a quem procura propiciar e a quem,não obstante,confia sua proteção.Assim,seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as consequências de sua debilidade humana.É defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer - reação que é,exatamente,a formação da religião."

"Estes [deuses] mantém sua tríplice missão : exorcizar os terrores da natureza ,reconciliar o homem com as crueldades do destino ,particularmente a que lhe é demonstrada na morte,e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs."


  Acho que por hoje é só,no próximo post eu continuo a partir dos motivos encontrados no livro sobre os porquês de acreditar em em uma divindade e/ou seguir uma doutrina religiosa.
Beijos :*

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